O celular começa a despertar, seis horas em ponto do dia 9 de junho. Esta escuro lá fora, como vou sair na rua com essa escuridão? Volto a dormir. Parece que mal fecho os olhos o despertador soa novamente. Seis e meia. Ainda está escuro la fora. A cama quentinha cheia de cobertores me oferecia conforto e proteção, enquanto lá fora reinava a escuridão e o frio. Meu plano era pegar o ônibus às sete horas, chegar antes das sete e meia ao Cais do Porto, esperar o pescador Zé Luis – que eu nem conhecia, fazer a entrevista e vazar para aula de Fotojornalismo. Mas será que tudo isso iria dar certo? Eu não havia marcado nada com seu Zé, eu simplesmente ira aparecer la e torcer pra que ele aceitasse fazer a entrevista. Ponderei um pouco sobre essas questões. Verifiquei a hora e constatei que era seis e trinta e cinco. Levantei da cama e vesti 2 calças, 3 casacos e meu tênis branco. Peguei a mochila, câmera, celular caneta e meu bloquinho. Dormir eu não iria mesmo, pois iria ficar com peso na consciência por não ter feito meu trabalho.
Vou até a parada onde pego o ônibus . Desembarco na Praça do Passo e vou direto ao Porto. Confesso que não sabia muito bem o que fazer, mas eu iria seguir meu faro jornalístico.
Tiro a câmera da mochila e começo a tirar fotos do rio. O dia havia clareado a pouco e o céu rosado dava um tom roxo as águas do gigante Uruguai. Um homem passa por mim. Ele veste um moletom roxo por baixo do casaco azul. A calça tinha estampa camuflada, como aquelas de milico, um tênis velho nos pés e nas mãos um pote branco todo sujo de barro. Seria ele seu Zé Luis? Vou atrás dele quando vejo que ele se dirige para um pequeno barco. Agora ele está com os pés descalços em uma vala por onde o esgoto jorra diretamente o rio. Me da arrepios. Me aproximo e pergunto: ”O senhor é pescador?” A afirmativa dele me bastou para desenrolar a entrevista. Ele realmente era Zé Luís. Enquanto escuto seus relatos vou reparando na sua aparência. Os olhos são pequenos, com as covinhas enrrugadas pelo tempo. Ele fala lentamente, como se estivesse escolhendo as melhores palavras para falar. O boné deixa a mostra grande parte dos cabelos, extremamente escuros, dentre os quais se destacam vários fios brancos.
Encerro a entrevista e explico que vou fazer fotos enquanto ele inicia a pesca. Nessa hora o pescador me convida para ir junto. Talvez ele tenha se assustado com minha reação, pois ele mal acabou de fazer a proposta eu já havia dito sim, com os olhos brilhando. Na verdade era tudo que eu queria. Depois de passar dias ouvindo o relato de pescadores e seu trabalho, eu mal via a hora de ver com meus próprios olhos o processo da pesca.
Moreno é o primeiro a embarcar no pequeno barco de madeira. Não me deixaram embarcar pela vala de esgoto, e Zé Luis arranja uma tábua para eu ir da margem até o barco. A tábua estava toda enlameada e lisa como sabão. Falam pra eu ter cuidado, mas consigo derrubar minha mochila no rio. Ao menos não fui eu que cai, e consegui recuperá-la a tempoO barco balança muito e me assusto no começo. Depois me ajeito e me sinto mais segura. Moreno puxa uma pedra do fundo do barco e começa a afiar uma faca. De costas para Zé Luis só percebo o movimento continuo dos remos e o arfar de sua respiração.
Observo o céu. O sol não passa de uma pequena bola brilhante encoberto pela densa fumaça do vulcão Puyehue. Até a água fica com uma aparência esbranquiçada.
Seu Zé para de remar para começar a tirar os anzóis do rio. O movimento da água confunde, e da a impressão de que o barco sempre esta em movimento. O anzol que Zé Luís tira do rio é chamado e espinhão, e contem 30 anzóis. Enquanto trabalha Zé Luis vai me explicando os sinais da natureza que indicam mudanças no clima. Moreno utiliza a faca para fazer iscas. Minhas mãos estão congelando. Tenho a sensação que meu rosto esta todo rachado, e que o vento penetra em meu corpo levando o frio até as pernas. Zé Luis retira do anzol um Morre-morre. Ele era bonitinho, de cor rosa, meio roxinho. Fico brincando com ele e pergunto por que o peixinho tem esse nome. Diante de minha ignorância recebo a resposta mais obvia: “Ele morre facilmente”. Como havia sujado minhas mãos, pego um pequenino potinho branco cheio d’água e tento lavá-las. Os dois riem do meu sofrimento, e apontam para grande extensão de água que nos rodeiam. Mergulho a mão no rio, e para minha surpresa a água estava quentinha, fazendo com que uma sensação deliciosa percorresse meu corpo.
Nos dirigimos para a margem. Ao chegar perto o Cais do Porto Zé Luis amarra uma corda no barco e com habilidade salta para o muro de pedra do cais. Ele puxa o barco pra perto do paredão de pedras. Em seguida desembarco rapidamente sem a ajuda de ninguém e sem derrubar nada no rio. Recebo elogios pela minha agilidade. Agradeço pelo passeio e me despeço dos dois. Saio contente, por ter realizado mais uma aventura em busca da reportagem.

0 Response to "Longe da Terra Firme"
Postar um comentário